Uma pancada violenta atingiu a porta do ateliê; o barulho superando o som da chuva e me pegando desprevenida.

     O meu solavanco para frente fez a agulha errar o caminho, atingindo entre os dedos da mão esquerda. Puxei a saia e pressionei-a contra o sangue. O tom escarlate já tinha manchado um pouco o tecido branco sobre a mesa, porém, esse era um problema para outra hora, porque as batidas se repetiram. Urgentes e fortes.

     Levantei os olhos, ignorando a dor no pescoço por ter passado tanto tempo na mesma posição. Nenhum incômodo físico podia me deixar mais angustiada do que aquilo: batidas tão desesperadas quanto as garras de um animal ferido pedindo abrigo.

     Os meus batimentos descompassados acompanharam as pancadas, quase em sincronia, e a cada novo baque, eu precisava fazer um pouco mais de força para não me encolher. A contragosto, forcei meus pés a sustentarem o peso do corpo cansado das horas de costura.

     Aquilo era tão incomum!

     Ninguém batia à minha porta sem ter um agendamento prévio, muito menos longe da luz do dia. Naquele horário, a névoa engolia torres e chaminés em um balé espectral, infiltrando a melancolia entre as fendas das casas. Além disso, nos últimos meses, as encomendas eram quase nulas. A última cliente partiu três semanas antes, levando seu vestido de luto e deixando apenas o eco de suas lágrimas nas cortinas pesadas.

     Parei em frente à vidraça, em um ponto onde não podia ser facilmente vista. A figura do outro lado cessou o punho por alguns segundos e olhou para trás. Franzi o rosto, ponderando se ele ou ela iria embora, e, pior, se eu permitiria isso por medo. Aparentemente, sim. Porém…

     Mais batidas. Dessa vez, essas foram acompanhadas de um gemido feminino. Debaixo de toda aquela roupa e caos, eu não reconheci uma mulher, mas o tom de voz, o choramingar suave em meio ao som da chuva…

     A vidraça estava embaçada pelo contraste entre o calor das velas e o frio de fora. Passei a manga do vestido pelo vidro, abrindo um arco úmido na condensação, e espiei, dessa vez fazendo esforço para ver melhor.

     — Sei que está aí. Preciso falar com você!

     Na soleira, uma jovem me pressionava a atendê-la. Mesmo encoberta por roupas de frio, ainda podia ver seu corpo tremendo. A cabeça baixa, o dorso inclinado na direção da porta e o punho levantado batendo nela sem cessar. Conseguia imaginar o sangue pulsando descompassado em suas veias, lutando para manter o corpo quente.

     Sua vida parecia depender de que eu abrisse, e a figura do outro lado não fazia questão de esconder isso. Cada pancada era mais urgente que a anterior, cada gemido mais fino, mas toda aquela aflição não podia ser apenas pela tempestade. Ela queria algo de mim. Algo específico. E a incerteza me fazia desejar recuar até o fundo do ateliê, onde as sombras amigas não exigiam nada.

     Mas… era apenas uma mulher. Desesperada, sim, mas apenas uma mulher como eu. Lembrar disso relaxou meus ombros.

     Atrás do arco que limpei na vidraça, eu via a chuva transformar o paralelepípedo em rios escuros onde se espelhavam os lampiões a gás. Eu podia imaginar o vento arrastando consigo o cheiro da noite — terra encharcada e flores murchas — e o frio adentrando pelas frestas sem aviso. Tudo parecia conspirar para me afastar da porta. E, ainda assim, eu não conseguia ignorar a voz da mulher misturada à tempestade.

Girei a chave. A fechadura cedeu com um estalo seco, quase um suspiro.

— Finalmente! — A voz irrompeu antes de eu puxar a porta por completo.

O tom aliviado me envergonhou pela demora e me fez engolir o pedido de desculpas.

— Por favor, por favor, me atenda!

A moça deslizou para dentro do ateliê sem pedir licença, mas não estranhei. Deveria estar morrendo de frio.

— Como posso…

— Preciso de um vestido de noiva para amanhã — interrompeu-me, e sua mão se fechou sobre o ventre. Era um gesto protetor e rápido demais para ser casual. — Infelizmente, minha mãe vai conseguir terminar o que eu queria, porque o meu noivo decidiu apressar o casamento, mas você pode costurar um novo.

Observei-a caminhar. Seus movimentos me lembravam um animal ferido buscando refúgio. A água escorria de suas roupas formando poças no assoalho de carvalho, mas eu não reclamei e a jovem tão pouco parecia se importar.

Empurrei a porta, trancando a noite atrás dela. O trinco resistiu e precisei forçar até ouvir o clique definitivo. Voltei a atenção para a nova cliente e franzi o cenho, porque a sensação de "animal ferido" não durou muito.

Os lábios da jovem ainda tremiam, mas seus olhos percorriam o ateliê com uma atenção que não combinava com o desespero de antes. Pareciam catalogar e memorizar as coisas do ambiente. A posição da mesa, a distância até a janela, as saídas, os primeiros degraus da escada que dava para o segundo andar, onde os quartos ficavam. A postura era de um soldado mapeando território para saber se era seguro.

Esfreguei as mãos no avental, incomodada sem saber exatamente com o quê. Uma jovem dama não representava perigo. Repeti a frase em meus pensamentos algumas vezes. Tinha a impressão de que, na verdade, o verdadeiro risco era para ela mesma e ele estava em seu ventre. Isso explicaria todo o desespero da mulher em minha porta. Um vestido de noiva para uma possível grávida sem marido era realmente uma urgência.

— E então? Consegue cumprir o meu pedido? — ela insistiu diante do meu silêncio.

— Amanhã? — Minha voz soou estranha após tantas horas calada e precisei tossir para continuar. — É impossível. Um vestido de noiva demanda semanas de trabalho, fora as medidas, os ajustes…

A moça retirou as roupas de frio, balançando-as até encontrar um papel em um dos bolsos. Quando estendeu a mão para empurrá-lo na minha direção, notei as marcas nos dedos: pequenas depressões circulares nas pontas, do tipo que o dedal deixava depois de anos. Ela pressionou o material úmido contra minha palma com uma certa força desnecessária.

— Anotei tudo — disse, a firmeza na voz destoando das mãos trêmulas. — Não importa o preço, mas o vestido deve ser perfeito.

Abri o papel. A tinta estava borrada, mas legível em números rabiscados com precisão. Não parecia uma anotação improvisada.

A circunferência era de um busto amplo, quadris largos; uma estatura muito diferente do corpo magro e baixo diante de mim: o topo de sua cabeça mal alcançava a moldura central da porta.

— Essas medidas…

— São exatas — cortou-me rápido demais.

Meu pé recuou meio passo, quase por contra própria, e seus olhos se estreitaram ao encontrarem os meus. Não soube dizer se notou o movimento ou se apenas não tolerava ser questionada. Porém, havia uma frieza latente no castanho das suas íris, uma aspereza incômoda demais para quem parecia inofensiva antes.

Não fossem os meus pés pisando nas poças formadas pelas roupas encharcadas dela, eu diria que estava sonhando acordada novamente e sua figura batendo desesperada na minha porta, no meio de uma tempestade, não passava de parte do meu delírio.

— Anotei esta manhã — completou, mais devagar, suavizando o tom, mas não o meu desconforto.

Na borda do papel encharcado, quase apagada pela chuva, havia uma anotação adicional. Um endereço rabiscado com pressão excessiva: Rua das Acácias, 43.

O cemitério da cidade.

O estômago contraiu-se. Ergui os olhos do papel, mas a jovem já se afastara em direção à mesa de costura, onde o tecido branco manchado com o meu sangue ainda estava.

     — Como conseguiu…

     — Consegui o quê? — A cabeça dela inclinou-se num gesto ensaiado demais para ser inocente. — Uma amiga recomendou você, disse que era a melhor costureira da cidade. Você nunca recusa um trabalho, certo? Entende de urgências, eu presumo.

     Eu deveria recusar dessa vez. Deveria devolver o papel encharcado, indicar a porta e retornar à segurança do silêncio. Alguma coisa em mim insistia para que fizesse isso, mas as encomendas tinham secado. As moedas no pote da cozinha mal cobririam mais duas semanas de velas e farinha. Não podia me dar esse luxo.

— Custa seis marcas e metade precisa ser paga agora.

     Ela não hesitou: a quantia foi quase lançada sobre a mesa de costura. As moedas douradas tilintaram, encerrando qualquer negociação que eu ainda fingia existir.

     — Está tudo aí.

     Virou-se para a janela lateral, a atenção cravada na rua. Ela esperava alguém? Sua expressão parecia atenta demais, a procura de algo, talvez uma pessoa.

     — Você trabalha sozinha, não é? Deve ser… produtivo. Sem distrações.

     Não respondi, porque eu havia feito um péssimo negócio e só queria encerrar aquela conversa logo. Meu silêncio pesou mais que qualquer palavra boa ou ruim, e ela pareceu entender o recado.

     — Volto amanhã, à meia-noite. — Já se afastava em direção à porta quando acrescentou, sem se virar: — Não me decepcione.

     Um frio subiu pela minha espinha e ele nada tinha a ver com o gelo da noite que adentrou o ateliê quando ela abriu a porta.

     — Farei o possível — balbuciei, baixo.

     A mulher sorriu e o alívio em seu rosto não alcançou os olhos. Esses permaneceram friamente satisfeitos, as íris brilhantes de quem acabara de vencer uma aposta. A noiva desapareceu na névoa, dissolvida pela chuva como se nunca tivesse existido.

Afobada, tranquei a porta e apoiei-me contra a madeira. Espalmei a mão direita sobre o peito e senti o coração ainda acelerado por razões desconhecidas e sem lógica. Meus dedos apertaram o papel úmido.

     Deveria ter recusado. Deveria ter devolvido cada moeda. Mas o dinheiro já estava sobre a mesa e o trinco fechado. A escolha já tinha sido feita, e eu era muito cobarde — ou muito necessitada — para desfazê-la. Dobrei cuidadosamente as medidas e as guardei no bolso do avental.

     As horas seguintes se dissolveram entre cortes precisos e pontos minuciosos. Acendi as velas uma a uma, enchendo o ateliê de luz. Suas chamas lançavam sombras dançantes nas paredes, companhias silenciosas e reconfortantes.

— As medidas são falsas — murmurei para Eliza enquanto alfinetava uma prega.

     O manequim ficava entre a mesa de costura e a janela frontal. Modelava um busto feminino com torso de algodão prensado, tudo isso sobre estrutura de madeira e base tripé de ferro pintado de preto. A superfície da parte de cima guardava milhares de furos de alfinete, tantos que o algodão se desgastara em certas zonas e revelava a estopa por baixo.

     A cabeça, esfera lisa de madeira sem feições, fora pintada por vovó com olhos azuis e lábios rosados. Ela tinha feito aquilo numa tarde de solidão nunca explicada. O pescoço articulado permitia inclinação e rotação, e eu aprendera, ao longo dos anos, a ler nas posições de Eliza o estado do meu próprio espírito — inclinada para a esquerda quando eu estava melancólica, ereta quando concentrada, virada para a janela quando o ateliê me sufocava. Eliza era companhia para uma alma solitária.

     Estirei o fio entre os dedos, testando a tensão antes de cravar a agulha. Ponto, puxar, tensionar. O movimento hipnótico protegia-me de pensar demais, porque cada ponto era uma âncora no presente, um segundo roubado da ansiedade que fervilhava sob a superfície da minha pele. Porém, algo naquele encontro tinha sido demais para mim, tão forte ao ponto de nem a costurar me distrair o suficiente para me fazer esquecer da mulher…

     — Aquele endereço… Por que alguém anotaria o cemitério no papel de um vestido de casamento? — verbalizei o pensamento olhando brevemente para Eliza. Não aguentava mais manter minhas dúvidas só para mim.

     Os números não correspondiam ao corpo da jovem. O vestido poderia ser destinado a outra pessoa ou para alguém que talvez nunca o vestisse. E isso não deveria me deixar nervosa. Eu não tinha nada a ver com aquilo. Cortei uma linha com os dentes e a cuspi para o lado. Mas…

     — Por que mentir? Por que alguém anotaria o cemitério no papel de um vestido de casamento? — insisti.

Eliza, claro, não respondeu.

     Ela nunca responderia, mas isso não me incomodava. Em doze anos de solidão, aprendi algo irrevogável: objetos eram companhias mais confiáveis, porque pessoas mentiam. Abandonavam. Morriam. Eram capazes de deixarem vazios insuperáveis mesmo sem querer. Eliza, não. E eu preferia assim: calada, mas fiel. Porém, doía lembrar que…

    Minha avó teria respondido. Ela sempre me respondia, mesmo quando as perguntas não tinham resposta. Costumava dizer, em um tom gentil, mas firme: “o silêncio é a agulha do diabo, Inessa, onde ele enfia a linha do medo.”

     A lembrança da voz dela surgiu sem convite, acompanhada de um calor familiar na garganta. Engoli em seco; não era hora de sentir saudade. Minha mão parou sem comando e a agulha escapou em dedos que não me obedeciam. Outra vez.

    A polpa do indicador abriu-se e o sangue brotou quente e abundante, tingindo a seda. Pressionei o dedo contra os lábios, o gosto metálico invadindo minha boca. Dessa vez, a dor tinha sido mais intensa.

     Fechei os olhos, apertando as pálpebras até ver estrelas explodindo no escuro. Quando os reabri, em algum ponto entre os movimentos, estranhei a iluminação do local.

     As velas continuavam acesas, cada uma em seu lugar. A mesa, os tecidos, as tesouras — tudo idêntico. Mas as sombras… Levantei-me devagar, a cadeira arrastando no assoalho.

     As sombras estavam diferentes. Todas elas, ao mesmo tempo. Tinham aproveitado o segundo de distração, o momento exato em que fechei os olhos para conter a dor, para deslizarem alguns centímetros em direção ao centro do ateliê. Em minha direção.

     Eu estava… Eu estava delirando?

     As chamas das velas se curvaram sem razão aparente. Não havia corrente de ar. As janelas permaneciam seladas e as cortinas pesadas como mortalhas. Mesmo assim, as pequenas labaredas dançaram sem música e o frio chegou sem aviso, implacável e antinatural, e meu hálito condensou em nuvens brancas.

     Minha garganta fechou, o ar entrando pela metade em pulmões que não me obedeciam. Recuei até minha perna bater na beira de uma das cadeiras e me fazer cair sentada no chão. O tecido do vestido veio junto comigo, pendendo da mesa. Baixei os olhos para ele e vi o sangue sobre a seda. Gelei, piscando repetidas vezes.

Eu estava delirando. Era a única explicação.

     As gotas tinham escorrido, espalhando-se, formando linhas que meu cérebro se recusava inicialmente a interpretar como algo além do acaso.

     Esfreguei o rosto. As linhas permaneceram. Pisquei novamente. As linhas se definiram em letras traçadas em meu próprio sangue sobre a seda.

     INESSA

     O nome que poucos pronunciavam desde a morte da minha avó. O nome enterrado junto com qualquer chance de eu ser alguém além da costureira solitária do fim da rua.

Tentei me levantar, mas meus pés não responderam. Meu corpo inteiro não me obedecia.

     A sombra projetada do canto onde Eliza repousava começou a se soltar da parede como tinta derretida. A escuridão deslizou pelo assoalho até encontrar meus pés. Subiu pelos tornozelos numa carícia gelada, úmida e viva, uma que negava todas as leis conhecidas; a ausência de luz desenvolvendo tato.

     Havia peso real contra meus tornozelos. Não era uma metáfora ou imaginação.

     Procurei à beira da mesa e agarrei-me nela, mas uma das sombras me puxou de volta.

     As outras avançaram. Não deslizaram! Elas marcharam, movendo-se com propósito, formando um círculo e fechando-se ao meu redor.

     Eu iria morrer ali. No meu próprio ateliê. Presa por sombras que, até minutos antes, me faziam companhia.

     Acima do barulho do meu coração, a tempestade rugia lá fora com intensidade renovada. Um relâmpago chamou minha atenção para a vidraça lateral no instante em que todo ateliê foi inundado por luz. Por alguns segundos, esqueci das sombras e do medo. Meus olhos fixaram-se em algo atrás do vidro. Ou melhor: alguém.

     Uma silhueta feminina, parada, com seu corpo voluptuoso e ombros largos. Aquelas eram as medidas certas.

     Seus olhos encontraram os meus e ela parecia me ver nitidamente. O vidro embaçado não a impedia de me encarar com atenção; eu, no entanto, não tinha a mesma habilidade.

     O trovão explodiu, devolvendo a escuridão ao mundo, mas ela permaneceu visível e consideravelmente mais próxima, como se tivesse usado o espaço entre luz e som para deslizar através do tecido da realidade.

     Quando o segundo clarão iluminou a janela, pude notar os olhos cinzentos refletindo a luz. Na verdade, eles iam além: a devoravam e regurgitavam transformada em fúria.

     Suor frio escorreu entre minhas omoplatas e meus dedos se cravaram na borda da mesa com força suficiente para revelar cada osso, cada articulação. A madeira era minha única âncora num mundo perdendo sua solidez rapidamente.

Quando a escuridão retornou, não havia mais vultos ou silhuetas. Respirei. Outra inalação que encontrou resistência nos pulmões comprimidos novamente. Tentei mais uma vez. O ar entrava, mas não preenchia o vazio crescendo dentro de mim.

     Quatro. Cinco. Seis. Sete respirações não trouxeram alívio. As sombras continuavam avançando.

     Então — devagar, como quem costura às avessas, desfazendo ponto por ponto —, os eventos da noite se reorganizaram na minha cabeça: a jovem na porta; sua postura questionável; as medidas que não eram dela; as sombras tomando vida própria e os olhos cinzentos na vidraça…

     Lembrava ainda da minha avó contando a lenda da Noiva Cadáver. Eu tinha medo, mas adorava ouvir a história. Minha avó dizia, em uma voz calma: "ela sempre renova seu vestido de noiva, ansiando por um dia usá-lo em um casamento. Sempre a noiva, nunca a esposa…"

     A jovem encharcada era uma cúmplice. E eu, a costureira solitária aceitando o trabalho porque precisava do dinheiro, era a artesã convocada.

     A Noiva Cadáver finalmente iria reivindicaria os seus direitos.

     Eu soube, quando o relógio da torre bateu meia-noite, que restavam exatamente vinte e quatro horas até ela retornar para buscar seu vestido.

     E sua costureira.


Capítulo 1

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